Guaranis: do jejuvy à palavra recuperada
Muito além de mortes banais, os suicídios indígenas em Mato Grosso são
também protesto, ritual, performance de uma cultura que sobrevive por
um fio muito tênue e belo. Agora, uma campanha nacional quer defender
suas terras e matas, seu tempo distinto, sua singularidade possível
Fabiane Borges, Verenilde Santos
Performance ritual:
O dia amanhece com um índio guarani-kaiowa enforcado. Cadarço de tênis
esticado da árvore. Banho tomado, perfumado, de joelhos.
A aldeia bororo sabe do que se trata: do jejuvy. Isso não é conforto,
é ritual de morte. A palavra jejuvy na língua dos Guarani [1] tem uma
carga semântica que significa aperto na garganta, voz aniquilada,
impossibilidade de dizer, palavra sufocada, alma presa. É através do
ritual do jejuvy que os kaiowas praticam o suicídio, por enforcamento
ou ingestão de veneno. Apesar de ser reconhecido como prática ritual
ancestral, nos últimos anos o jejuvy alastra-se pelas aldeias em
escala epidêmica. São cerca de 50 suicídios por ano, envolvendo jovens
de 9 a 14 anos de idade.
Segundo dados do Conselho Indigenista Missionário (CIMI), o número de
suicídios começou a aumentar nos anos 80, dobrou na década de 90 e
bateu o recorde na virada do século 21, chegando aos mais de 50 por
ano. Não são temas deste artigo as mortes por desnutrição, os
homicídios entre os próprios indígenas ou as guerras incessantes entre
indígenas e fazendeiros, fatos igualmente chocantes. [2]
Os suicídios (jejuvy) são efetuados basicamente por enforcamento
(método antigo) e ingestão de venenos das monoculturas (método novo).
Rejeita-se a “poluição” como derramamento de sangue ou cortes físicos,
para que não se perca a palavra. Muitos guaranis consideram o suicídio
uma doença produzida pela prisão da palavra (alma). É pela boca que a
palavra se liberta. Se não há lugar para a palavra, não há vida. Por
isso, na hora de morrer, não deve ser utilizado o corte contra si
mesmo, pois a palavra se dispersaria. Sufocando-a, ela permaneceria
como um aglomerado de energia e poderia voltar a vingar em algum outro
momento.