Uma representação para os índios no Congresso Nacional

Um médico, quatro jornalistas, vinte advogados,   quarenta  professores , dois mestres, um doutor e um vereador. Essa é a  representação que  os povos indígenas brasileiros dispunham até o final do ano passado para discutir seus interesses junto a chamada  sociedade civilizada . A ela agregavam-se um ou dois deputados brancos que se diziam falar pelos índios no Congresso Nacional.
Oitocentos líderes de 200 grupos, falando 180 línguas estiveram reunidos, em Brasília, na Conferência Nacional de Povos Indígenas, e outro grupo de 40 naçoes está em Recife/Olinda celebrando esportivamente o encontro dessas comunidades nativas  . Embora  os resultados registrados no documento final da Conferência estejam muito aquém das necessidades dos índios, abriu-se, contudo,  uma larga avenida para que eles assumam vagarosamente  seu próprio destino, e os “brancos”, até mesmo os antropólogos, passem a falar por eles “ somente se convidados”.
A Conferência gerou idéias  novas relativas a autonomia desses povos, que poderá criar ainda muitos problemas, mas também saídas interessantes . Uma delas , em gestação, é promover  alteração da Constituição Federal para criar  uma quota eleitoral (vagas mesmo), que permita aos ìndios ter, sem restrições de domicílio, representantes próprios no Congresso Nacional,de modo a facilitar a condução de seus interesses junto à sociedade brasileira.
É bom lembrar que até à Constituição de 1988,  o índio era considerado no Brasil incapaz de resolver seus próprios problemas. E, assim, sem autonomia, estava obrigado a aceitar as regras  da “sociedade do branco” . Tutelados pela debilitada Funai, viram-se abandonadas em várias ocasiões. Confinados em territórios, cada vez menores, e mais próximos de vilas, cidades e rodovias, tiveram suas populações reduzidas pelas epidemias do branco e pela   falta de terra para caçar, pescar e até mesmo desenvolver sua agricultura de subsistência. Assim, passaram a perder  populações. Dos  12 milhões de indivíduos, estimados para o período da descoberta do Brasil, existem hoje  apenas 350 mil . Entre eles, 12 grupos  não contatados  por iniciativa de dirigentes da própria Funai, que prefere mantê-los distantes da sociedade  do “branco”.
No Mato Grosso (sul e norte) os  suicídios de índios tem deixado  a sua marca “genocídica”, mas já não há mais interesse da imprensa, que se deu por satisfeita com reportagens feitas sobre os primeiros mártires indígenas. Nos últimos dez anos  suicidaram-se, entretanto, nessa mesma região de Dourados (MS,) mais  de 300 índios. Estão  pressionados, de um lado, pela disputa de espaço hegemônico entre eles pelas diferentes seitas religiosas, ignorando totalmente as tradições  culturais e místicas dos diferentes grupos locais; de outro, pelos proprietários de terras, que conseguiram praticamente confinar os índios em reservas que, com o crescimento da população, tornam-se a cada ano menores.
Os índios reconhecem os esforços de alguns políticos para defendê-los, desconfiam de  outros, mas parece justo que tivessem, de fato, seus próprios representantes  no Congresso, nas Assembléias e nas Câmaras. Dir-se-ia que é pouco, pois são cientificamente reconhecidos como “nações”  autônomas  inscrustradas no território brasileiro, que lhes foi tomado. Reconhecem-se como tal mas, na sua pluralidade cultural, não chegam a pensar em criar o  próprio Estado. Isso, contudo, não pode deixar de ser motivo de cuidados. Nesse sentido as ONGs têm mais sensibilidade que os governos.
*Aylê-Salassié
* Coordenador do projeto Teñodé Porá

Fonte: Tenõde Porá UCB News

http://tenodepora.spaces.live.com/

 

Tenõdé Porã UCB News

Universidade Católica de Brasília – Comunicação Social – NUCLAM

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