Jovens indígenas são os mais preocupados com questões ambientais, diz estudo

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Transmitir a herança cultural de uma geração
para outra é preocupação dos jovens indígenas

 

A memória ainda guarda registros de crueldade que parecem vivos cinco séculos após mais de 70% da população indígena ter sido dizimada no Brasil. Primeiro a colonização portuguesa, com mortes e exploração análogas à escravidão. Muitos morreram de fome. Outros por enfermidades. Depois, o crescimento populacional desordenado limitou a propriedade indígena, espremendo aldeias em confins inalcançáveis. O futuro, nada distante, aponta para um veredicto assustador: devido ao difícil acesso a educação e com o agravamento dos problemas ambientais, os jovens indígenas temem o fim da sua população e cultura.
Segundo a pesquisa Adolescentes e Jovens do Brasil: participação social e política, divulgada na última quinta-feira, 29, pelo IBOPE em parceria com o UNICEF, a Fundação Itaú Social (FIS) e o Instituto Ayrton Senna (IAS), preservação do meio ambiente e educação são as principais preocupações da nova geração de índio-descendentes do Brasil.
O estudo traz uma análise de jovens entre 15 a 19 anos, de aldeias e de grandes centros urbanos do país. Cerca de 26% dos indígenas entrevistados apontam a preservação do meio ambiente como uma questão prioritária entre os problemas sociais do Brasil. O número cai para 15% no grupo dos jovens das cidades, que, por sua vez, dão prioridade a questões relacionadas a políticos e corrupção (20%), enquanto os índios dão menos vez ao assunto (11%).
Para o coordenador estadual de Políticas para Povos Indígenas, o pataxó Jerry Matalawe, a disparidade se dá pelo fato de a natureza ser o elemento principal da cultura indígena. “É uma questão, antes de tudo, espiritual. Não respeitar a natureza significa destruir a nossa própria cultura”, explica.
Matalawe aponta a sociedade urbana como uma das responsáveis pela falta de uso sustentável da natureza. “O pior é que o homem da cidade polui e destrói os recursos hídricos, colabora diariamente com o avanço do aquecimento global, e nós, índios, somos prejudicados como se fossemos os causadores”, opina.
A coordenadora executiva da Associação Nacional de Ação Indigenista (Anai), Marta Timon, lembra ainda que a ligação do índio com a terra independe da faixa etária. “É uma relação muito mais estreita que a do homem urbano. Tudo está associado à natureza desde o campo religioso e social ao desenvolvimento econômico das aldeias”, exemplifica.
No 2º Encontro Nacional dos Povos Indígenas, realizado em setembro passado em Brasília, o jovem Tseredzaro Ruri’õ Xavante, da Aldeia Abelhinha, no Mato Grosso, sintetizou a preocupação dos índios com as questões ambientais.
“Lutamos pelo meio ambiente porque a natureza somos nós”. Para ele, é tempo de os jovens indígenas unirem forças junto com líderes indígenas e não indígenas na defesa dos direitos dos povos originários, garantindo, assim, a continuação da geração. O depoimento está disponível no site da Agência Vira Jovem
Superação – Além da questão ambiental, uma das principais preocupações dos indígenas é o acesso a educação. De acordo com o coordenador estadual de Políticas para Povos Indígenas, o pataxó Jerry Matalawe, a Bahia tem alto índice de defasagem escolar.
Existem no Estado 57 escolas voltadas às comunidades indígenas, sendo 50 municipais e sete estaduais. Apenas quatro oferecem o ensino fundamental da 5ª a 8ª série. Essas escolas dão conta de um universo de 20 mil índios, segundo o Programa de Pesquisa sobre os Povos Indígenas do Nordeste Brasileiro (Pineb).
Ao todo, são 12 tribos espalhadas na Bahia. “A maioria dos estudantes tem que sair da aldeia e se deslocar até a cidade mais próxima para ter acesso a educação”, explica Matalawe.
Embora as questões relativas a educação não sejam ideais, na pesquisa do Ibope, 9% dos índios disseram ter orgulho de seus professores e do ensino, contra 6% dos jovens urbanos.
Para a coordenadora executiva da Associação Nacional de Ação Indigenista (Anai), Marta Timon, o índice é um reflexo do momento atual. “O reconhecimento da identidade indígena tem sido muito discutido nos últimos anos. Fala-se mais sobre o tema, há mais espaço em fóruns nacionais e internacionais e também nos ministérios. As cotas nas universidades federais representam uma conquista e isso contribui para uma boa repercussão”, acredita.
Nascido na aldeia Tupinambá, em Olivença, no Sul da Bahia, Leonardo Gonçalves de Jesus, o Tamanduá, se prepara para enfrentar o vestibular de Direito da Universidade Estadual de Santa Cruz. “Estou confiante por causa das cotas”, comenta.
A aldeia onde foi criado é uma das poucas do Sul da Bahia que possui escola destinada especificamente a comunidade indígena. “Foi implantada há três anos, antes tínhamos que ir para a cidade. Em época de chuva era difícil. Precisava de carro com tração para enfrentar a estrada”, lembra.
A escola atende crianças até a 5ª série. Os professores são índios e foram capacitados pelo Ministério da Educação (MEC). O plano de aulas leva em conta um novo paradigma educacional de respeito à interculturalidade, ao multilinguismo e a etnicidade.

Foto:Xando Pereira
Fonte:Tássia Novaes / A Tarde On Line
http://www.atarde.com.br

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