Um dia quero ser índio – Etnia Tupinambá – Olivença / BA

Um dia quero ser índio
18/12/2007 às 13:31

O Poranci é o ritual que celebra alegrias e tristezas

Texto: Camilla Costa e Pedro Fernandes
Fotos: Iracema Chequer | Ag. A Tarde

Depois do desvio de asfalto esburacado e de uma estradinha de terra, o carro parou em frente à placa que dizia: Entrada de nãoiacute;ndio só com autorização da liderança. Aquela era a entrada da Aldeia Itapoã, território ocupado há cinco meses por 52 famílias de índios tupinambás, em Olivença, sul da Bahia.

 

Decidimos conversar com os tupinambás de Olivença depois de descobrir que eles eram colaboradores de um portal indígena na internet [ver pág. 8] . Por isso não esperávamos o que encontramos lá. Chegamos a comentar que eles já não deviam ser índios de verdade porque, hoje em dia, ninguém é.

 

Antes de entrar na retomada [como eles chamam a ocupação], imaginávamos que as casas fossem improvisadas, mas não dava para prever uma configuração tão próxima a uma aldeia mítica. Casas de palha e de taipa se seguiam uma à outra no terreno retangular. No centro, um grande quiosque de palha e uma fogueira.


Crianças nos olhavam curiosas, adultos, desconfiados. Pouco a pouco se aproximavam e contavam suas vidas. Mostravam fotos, livros escritos sobre eles, falavam sobre a colonização, a falta de energia elétrica e atendimento médico, a beleza da vida na aldeia.

No último dia, depois das despedidas e agradecimentos emocionados, ainda não sabíamos o que significa ser índio hoje. Mas já sabemos um pouco do que é ser tupinambá. Ser tupinambá é ser guerreiro, é ser importante, define a cacique Valdelice Jamopoty, 45.

Novos guerreiros para enfrentar novas guerras

Lorena, 23 e Leandro, 23: liderança e resgate de tradições

Jaborandy Yandê, 24: mistura de referências

Boné de hip hop, bermuda praieira, pinturas de jenipapo no corpo, alargadores de madeira nas orelhas. É uma mistura curiosa de referências culturais. Mas, depois de meia hora de conversa com Jaborandy Yandê, 24, a impressão de que ele é um surfista tirando onda de índio vai embora. O responsável pela transformação é o discurso contundente e seguro sobre sua identidade e seu povo.

Como um dos jovens líderes indígenas da região, Sosígenes do Amaral e Silva Junior, que escolheu o nome Jaborandy, viaja pelo País, debate com a Fundação Nacional do Índio [Funai], discute a política pedagógica da escola indígena com a Diretoria Regional de Educação e parece conhecer cada um dos parentes distribuídos nas 23 comunidades tupinambás de Olivença. Não gosto de pedir nada, mas só estamos exigindo o que é nosso por direito.

NO SANGUE  Se o assunto é brigar por direitos , Lorena Gonçalves [ou Iracema Yandê], 23, que trabalha ensinando cultura indígena para as crianças da tribo, não pensa duas vezes. Com quatro filhos, já esteve em três retomadas e viveu três meses na Suíça, participando de encontros para divulgar a cultura. Ela podia estar na casa da mãe, na cidade, com laje e tudo, mas prefere ficar na aldeia. Minha mãe diz que deve ser o sangue de índio.

Na aldeia, cada um contribui com algo

Cozinha coletiva da aldeia Itapoã

São barracos de palha seca e lona, e casas de taipa. Algumas ainda estão sendo construídas e só têm a armação de madeira. A retomada de Itapoã vai, aos poucos, sendo ocupada pelos tupinambás de Olivença. O terreno com muito mato ao redor foi expropriado de uma empresa com dívidas com o Banco do Brasil e inclui uma lagoa, lugar preferido da maioria dos moradores.

A lagoa é a nossa primeira parada, onde fazemos os primeiros amigos. Dona Marizete, 48, lavando roupa, conta sua vida em 15 minutos. Sou feliz demais vivendo aqui. No centro da aldeia, um quiosque abriga as aulas de tupi para crianças e adultos. É lá também que os moradores conversam durante o dia e noite adentro.

Em volta da fogueira, como se baila na tribo

 

Antes da noite cair, a fogueira já estava montada no meio da aldeia. Mais que clarear a noite sem luz elétrica e de céu impossivelmente estrelado, o fogo vai iluminar o Poranci, ritual que os tupinambás fazem sempre que têm vontade, num momento de alegria, tristeza, vitória ou celebração da fé em Tupã.

 

Eu sempre digo: Gente, vamos brincar, dançar um pouco, pra ver se anima a tristeza, conta Lorena. Mas a vontade de recuperar os costumes também se torna uma obrigação. Jaborandy e Lorena organizam o ritual, convidam todos a vestir suas tangas e até fiscalizam a participação.

 

As músicas, com versos como Devolva nossa terra, que essa terra nos pertence / Pois mataram e ensangüentaram os nossos pobres parentes, falam sobre o ser índio, do jeito que costumamos imaginar. Mas o respeito à natureza, o trabalho na terra, o orgulho da tribo e a exploração do homem branco são cantados em português,

poucas vezes em tupi.

Enquanto tiverem fôlego, por uma hora ou até o dia raiar, eles serpenteiam em fila em torno da fogueira no passo marcado pela canção. Quando a música fica mais rápida, as crianças correm para acompanhar e alguns desistem. Os mais velhos são os primeiros a deixar a roda, os mais novos perseveram e os evangélicos ficam só olhando, porque a religião não permite que participem. O resgate da cultura indígena esbarra em mais esse costume trazido pelo branco.

Ouça algumas da músicas do Poranci:

Aqui,

aqui

e aqui.

Fonte: A Tarde – Bahia /http://blogdodez.atarde.com.br/

Anúncios

Deixe um comentário

Faça o login usando um destes métodos para comentar:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s