Carta aberta de um jovem líder Kuntanawa

Carta aberta de um jovem líder Kuntanawa
HOME PAGE PÁGINA 20, 03.01.2008

Senhores governantes deste país e todos simpatizantes da causa
indígena da Amazônia brasileira, de qualquer lugar do mundo. Sou um
jovem de 25 anos, um dos principais líderes do meu povo Kuntanawa que
vive no alto rio Tejo, um dos principais afluentes do rio Juruá. Nesta
carta gostaria de chamar ou pedir a atenção de todos para a nossa
causa. Em 1911, meu povo sofreu um ataque muito cruel pelo
homem branco, quase causando o extermínio do meu povo, restando apenas
cinco pessoas. Durante muito tempo fomos massacrados e escravizados
pela exploração da borracha, fomos obrigados a deixar de falar nosso
próprio idioma e proibidos de praticar vários outros
costumes da nossa tradição. O tempo foi passando e aquela situação tão
constrangedora cada vez mais deixava meu povo indignado por não ter
sua liberdade e sermos sempre subordinados aos seringalistas que se
diziam donos de nossa terra. Meu povo já sem saber o que fazer. Foi
quando conhecemos uma pessoa por nome Antonio Luiz Batista de Macedo,
que com uma outra pessoa por nome Francisco Barbosa de Melo, que
também era filho daquele lugar, nos trouxeram uma proposta que nos
chamou bastante atenção: criar ali uma Reserva Extrativista, o que
para nós seria muito importante, era uma oportunidade de sair do
comando dos seringalistas. Sonhamos com nossa liberdade e ter uma
vida digna perante a sociedade. Não medimos esforços. Meu povo dedicou
sua própria vida, houve conflitos, muitas ameaças por parte dos
patrões, mas mesmo assim meu povo foi bravo e corajoso, não desistimos
e junto com outros povos da floresta criamos a tão sonhada
Reserva Extrativista do Alto Juruá. No início, tudo parecia ter
chegado ao final do problema. Chegamos a conduzir o processo
administrativo de desenvolvimento da organização dos moradores daquela
área e tudo estava dando certo. Tivemos conquistas importantes para
todos daquele lugar. Nossa relação com os
não-índios era muito harmoniosa. O tempo foi passando e as coisas
foram mudando. Acompanhei de perto, mesmo criança na época. Talvez
diferente de outra criança qualquer, acompanhava os passos do meu pai.
Aprendi bastante com cada homem comprometido que mostrava seu
interesse de ver as coisas darem certo. Só que nem tudo foi como a
gente pensou. Tivemos uma grande surpresa que foi um grande impacto
para meu povo: novas pessoas que na época não faziam parte da luta
assumiram o comando da Associação dos Seringueiros e Agricultores da
Reserva Extrativista do Alto Juruá, mudando totalmente o seu projeto.
Para meu povo, o que nos causou mais revolta foi o fato de terem nos
destratado, nos acusando de sermos um empecilho para o crescimento
econômico da Reserva. Mas a verdade era que meu povo discordava das
ilegalidades que passaram a ocorrer naquela área de preservação dos
recursos naturais. Meu povo então parou para refletir e nós
descobrimos que realmente a Reserva Extrativista não era mesmo uma
terra com nome adequado para um povo indígena. A terra indígena, para
nós, é um símbolo permanente da nossa criação e de nossa existência.
Por este motivo, eu peço em nome de meu povo o apoio e a
solidariedade de cada um que ler esta carta e entender nossa história,
e que se junte a nós em defesa da vida e da natureza.
Tudo que nós tanto queremos é nossa terra demarcada. Queremos
reconstituir nosso povo, voltar a viver feliz e cuidando sempre
daquele pedaço de terra que para nós é tão sagrado. Temos nossas
raízes plantadas neste lugar, da onde as nascentes fazem brotar as
águas que banham e matam a sede de milhares de pessoas. Meu povo
cresceu. Hoje somos 368 pessoas e todos precisam de terra para morar.
Queremos dar continuidade de nossa vida e história nesse lugar.
Muito grato a todos e todas que lerem esta carta e um grande abraço em
nome de todo meu povo.

Haruxinã (Flávio Kuntanawa)
Rio Branco, Acre, 17 de dezembro de 2007

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Um Comentário

  1. nana odara

    Vou divulgar a sua carta no meu blogue e enviar para os meus contatos de e-mail… Mas tbm precisamos saber de que forma podemos colaborar, se existe algum abaixo-assinado on line…
    Parabéns pela sua iniciativa de lutar pelo seu povo… Não desanime, a luta é difícil mas será vitoriosa… Dê às mulheres do seu povo a oportunidade de lutar tbm com voz ativa… Só as mulheres junto com os homens podem conseguir objetivos… E devemos lutar contra todos os tipos de dominação, inclusive da dominação do homem sobre a mulher, tbm…
    Se eu puder ajudar, conte comigo…

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