Borun Krenak: 200 Anos de Resistência à Guerra Justa (Douglas Krenak)

BORUN KRENAK
200 anos de Resistência da Guerra Justa

Ano de 2.008, século XXI. Terra Indígena Krenak, Aldeia Atorãn.

Neste ano, precisamente no mês de Maio, completará duzentos anos que um rei chamado Dom João VI declarou “Guerra Justa” ao meu povo Krenak. Na verdade, para nós Borun são duzentos anos de resistência e de luta pela vida.
Tudo começou quando em nossas terras atracaram os Kraí-Krenton (não-indio) com seus navios. Segundo nossos antepassados o motivo da vinda dos Kraí-Krenton fora devido à busca por riquezas, novas terras, escravos e exploração muita exploração, as mais cruéis e imperdoáveis explorações que já presenciamos e hoje sabemos.
No entanto, ao chegarem aqui em nosso continente, eles já mais podiam imaginar que dentro das belas e densas matas podiam existir os povos da floresta. Povos que tinham a natureza como lar, como santuário, como todas as coisas boas que a natureza possa significar. Enfim, eles nunca imaginaram o quanto era importante para nós à relação com a natureza, com o sagrado, com o preservar, em saber como é primordial manter intactas as coisas que o grande espírito criou para nós.
Sendo assim, ao exterminarem com todos os parentes da costa do nosso continente, os Kraí-Krenton decidem adentrar as matas à procura de riquezas, pedras preciosas e todas as coisas que viessem pela frente. Na época em que aquelas pessoas estranhas subiram os nossos rios, as nossas belas águas doces cortavam o que hoje chamamos de estados de Minas Gerais, Espírito Santo e Bahia. Era em toda essa região que vivia e comandava todo o meu povo, os “Borun” (essência do ser). Mas, não era bem assim que os estranhos nos chamavam. Desde aquela época a discriminação acontecia. Por meu povo usar adornos nas orelhas e nos lábios, eles passaram a nos chamar de “Botocudos” termo pejorativo que advém de Botoque, que significa rolha de fechar Barril.
O choque, o contato entre os Kraí-Krenton e o meu povo foi o mais violento, intenso e sanguinário que acontecera por este país. Matavam mulheres, crianças, velhos além dos nossos guerreiros nas batalhas. Mesmo assim, meu povo resistiu bravamente impedindo que os estranhos destruíssem nossas matas e levassem toda nossa riqueza.
Muitos anos se passaram e várias guerras foram travadas, milhares de Borun e Kraí-Krenton morriam desesperadamente.
Como se não bastasse tanta morte, mais estranhos chegavam e alojavam-se em nossas terras, chegando ao ponto em que a vida de todos os povos da floresta estava por fim. Durante todo esse período, os Kraí-Krenton não conseguiram nos derrotar tendo que apelar para uma severa e cruel estratégia, a de convencerem seus líderes que era preciso nos matar sem piedade para extrair de nossas terras as riquezas exuberantes.
Diante de toda repercussão, lendas de antropofagismo, histórias inimagináveis sobre meu povo, um rei que viera para nossas terras conhecido por Dom João VI decide declarar guerra ao meu povo, uma Guerra que teve o nome de Guerra Justa aos Botocudos. A justificativa do nome era porque o meu povo impedia o desenvolvimento por toda região. Pra ser sincero, meu povo impedia que nossas matas fossem queimadas, nossos rios poluídos, nossas riquezas extraídas e nossa dignidade manchada com sangue inocente. E por achar que nesta terra não tinha dono decidiram nos exterminar por completo, sem que nenhuma vida fosse poupada.
Em 13 de Maio de 1.808 com a divulgação da Carta Régia deu-se inicio oficialmente à Guerra Justa para complementar às decisões do famoso rei. A sanguinária ocupação de nossas terras com todo o esquema militar, de quartéis, cães e soldados durou longos 15 anos. Após repercutir por toda Europa e demais continentes a “Guerra Justa” teve fim oficialmente no ano de 1.823. Na verdade a guerra acabara apenas para os Kraí-Krenton, porque, para o meu povo ela ainda não acabou. Depois das guerras, nosso povo foi quase exterminado por completo restando poucas aldeias. A partir de então tivemos que passar por vários tipos de guerras e batalhas que se possa imaginar.
São na verdade os aldeamentos, os métodos de pacificação utilizados pelos governos, prisões, delimitação dos nossos territórios, negação da nossa cultura, projetos desenvolvimentistas, hidrelétricas, Usinas, reservas ambientais privadas e dentre várias outras.
As agressões ao meu povo e as reações adversas à nossa cultura são cada vez mais presentes, quase que incontroláveis, prestes a um conflito social de graves proporções.
É urgente, portanto, que todos saibam da riqueza e da importância que é a cultura de um povo, e com isso tomar iniciativas para tornar mais harmônica a convivência entre os povos de diferentes culturas.
Sabemos que a Constituição Federal dedicou um pequeno capítulo aos índios, reconhecendo sua organização social, costumes, línguas, crenças e tradições, impondo
à sociedade brasileira um dever legal de respeito e de reconhecimento das diferenças etnoculturais dos indígenas.
No entanto, a ignorância e desrespeito da sociedade brasileira acerca das questões culturais e tradicionais ainda é o que prevalece, levando ao preconceito e à
discriminação. É preciso demonstrar que essas diferenças são o que faz do Brasil uma grande nação.
Não podemos tomar como base e norteamento histórico informações como as que Rede Globo exibiu em série no Programa do Fantástico, colocando algumas figuras como
líderes e responsáveis pelo desenvolvimento do nosso país. É preciso dizer que Dom João VI teve que mandar matar injustamente vários povos indígenas para colocar
em prática seu plano de desenvolvimento, assim como Napoleão, Dom Pedro I e vários outros tiveram que cometer atrocidades para realizarem seus escandalosos planos.
Eu sei que muito ainda precisa ser feito para a construção de uma nova realidade, para que nossa sociedade caminhe rumo a um novo Brasil. Precisamos exigir do Governo
Brasileiro que a Sociedade e até mesmo os seus Governantes passem por um intenso processo educativo e de formação, buscando romper as barreiras da corrupção, da
violência, do isolamento, do desconhecimento não só dos Meios de Comunicação, mas, de todos os Setores e Sistemas da Sociedade Brasileira.
É chegada a hora de que nossas crianças precisam ser educadas com a verdade, com o real significado da palavra verdade. Para quem sabe assim construirmos um novo
mundo com um pouco mais de respeito as diferentes culturas e respeito ao nosso grande lar chamado Planeta Terra. Erehé Ynhauit. Paz e Luz a todos.

Douglas Krenak

Anúncios

Um Comentário

  1. Alice, de Itanhaém, Brasil

    Douglas Krenak, salve suas forças.

    Sou umbandista e busco informações sobre o culto ou ritual conhecido como Taru Andé, “O encontro do céu com a terra” na lingua krenak.
    Quero me informar sobre como é (era) feito este ritual pois, entidades indígenas do nosso terreiro indicam que este é um ritual importante e que deve ser mantido, também nos terreiros onde vêm caboclos, como forma de agradecer à Natureza tudo o que ela diariamente nos dá.
    Peço, para essa pesquisa, sua ajuda e orientação.

    na Luz,

    Alice Branco

Deixe um comentário

Faça o login usando um destes métodos para comentar:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s