Língua maranhense em risco de extinção

Fora os regionalismos contidos no português falado no Brasil, a pátria mãe abarca mais 215 línguas, provenientes de várias partes do mundo, segundo informes da Organização das Nações Unidas (ONU).  A Organização apontou ainda um total de 7 mil línguas em uso por falantes de todo o globo. Porém, tamanha diversidade, é combatida a estatística de que, a cada 14 dias, um idioma desaparece. No Brasil, onde há grande concentração de idiomas indígenas, 45 deles possui menos de 100 falantes. No Maranhão, o aurê-aurá é pronunciado por apenas dois índios, únicos sobreviventes de uma etnia distinta e sem registros.
No princípio, antes do desembarque de portugueses no Brasil, 1.270 era o número de línguas faladas no território nacional, todas por índios. Restam hoje apenas 180 idiomas, o que significa a extinção de 85% do patrimônio lingüístico do país, perda significativa da história relativa às etnias que resultaram no chamado “povo brasileiro”. Em contrapartida, muitos idiomas atracaram com a imigração, processo iniciado no século XIX. A mistura entre brasileiros, europeus a asiáticos, resultou em novas línguas, adaptações das antigas. Um exemplo disto é o talian, falado por quase dois milhões de pessoas no Rio Grande do Sul, diferente do original, do Norte da Itália. A hunsrückischi é outro dialeto fruto da imigração de alemães, cujos falantes estão espalhados em Santa Catarina, Paraná e Mato Grosso.
Sabe-se ainda que o Brasil ( 9º lugar no ranking de países com maior número de idiomas) abriga a segunda cidade mais plurilíngüe do mundo. São Gabriel da Cachoeira (Amazonas) convive com 23 línguas diferentes, a maioria indígena. Em 2004, a Câmara de Vereadores deste município elevou os idiomas tukano, nheegatu e baniwa ao posto de línguas oficiais, junto ao português.
Segundo o Instituto de Investigação e Desenvolvimento em Política Lingüística (Ipol), há ainda duas línguas crioulas no país, hoje pronunciadas no Amapá. Embora a extinção caminhe a passos largos, o surgimento de novas línguas permanece em evolução. Nos últimos cinco anos, foi feito o registro dos idiomas quechua e aymara, trazidos por indígenas bolivianos que migraram, sobretudo, para São Paulo.

INDÍGENAS
Uma proposta de alfabetização bilíngüe está sendo implementada pela coordenação de Educação Escolar Indígena, um departamento do Ministério da Educação, em escolas indígenas de todo o país. A iniciativa oferece conteúdos na língua do falante, a fim de coibir o abandono da língua natal em detrimento do português. Das 2.480 escolas indígenas, cerca de 1.870 oferecem o método de ensino.
Através de um dos professores de ensino bilíngüe em exercício no Maranhão, a equipe de O IMPARCIAL pode conhecer um pouco da história de “Aurê” e “Aurá”, dois índios por volta dos 45 anos, que deram nome ao único idioma que pronunciam. Sabe-se apenas que o aurê-aurá pertence ao grupo lingüístico tupi-guarani, e que os dois índios são seus os únicos falantes, últimos representantes da etnia que deu origem ao idioma. O professor Norval Oliveira da Silva, baiano “mas rodado por todo o país”, como se definiu, teve contato com os indígenas no início da década de 90, quando estes foram remanejados pela Fundação Nacional de Indígenas (Funai) ao Maranhão. A princípio encontrados no Sul do Pará, em uma serra a 200 km de Marabá, Aurê e Aurá foram levados à Oeste do mesmo estado pela Funai, a fim de encaixá-los em alguma tribo tupi-guarani. Depois de algumas tentativas Brasil afora, os dois índios acabaram na aldeia Tiracambú, aldeia localizada no Município de Alto Alegre do Pindaré [Baixada Maranhense], onde conseguiram se adaptar.

Sem contato
O professor, que a cerca de um ano e meio não tem mais contato com Aurê e Aurá, pois passou a ministrar em outra aldeia, da tribo Guajá, disse que aprendeu da língua o suficiente para entender um pouco do trajeto dos dois indígenas no país. Da Silva foi responsável pelo registro fonológico da língua, que resultou em um estudo realizado por lingüístico da Universidade Federal de Brasília. O professor Antonio Melo defende em artigo, a inclusão do aurê-aurá no último grupo lingüístico tupi-guarani, que contém 8 grupos. Da Silva revelou ainda a curiosa história dos nomes destes indígenas. “Funcionários da Funai notavam que eles [os dois índios] falavam muito “arê”, que em tupi-guarani quer dizer “nós”. Certa vez alguém entendeu de um deles “aurê”, e passaram a chamá-lo desta forma. A título de nomear o companheiro, apelidaram o outro de “Aurá”, e assim ficou. A tempos que eles respondem quando chamados por estes nomes”, relatou o professor. Segundo ele, Aurê e Aura não tem o menor interesse de aprender o português, ou qualquer outra língua, a fim de facilitar a comunicação com outras pessoas. “Nem serviria muito a eles, a esta altura”, opinou o graduando em letras pela Universidade Federal do Maranhão (Ufma), mas já mestre em lingüística pela Universidade de Dallas (EUA). Norlan  atualmente ensina índios guajás, que segundo ele são em número de 350, outra etnia que corre risco de extinção.

INVENTÁRIO
A fim de registrar todas as línguas ainda faladas no país, está sendo estudado a feitura de um inventário, a ser organizado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan). A proposta está sendo discutida junto à sociedade civil em todo o país, e aqui no Maranhão, por intermédio de uma Comissão de Educação e Cultura, presidida pelo deputado federal Gastão Vieira. Segundo a superintendente do Iphan, Kátia Bogéa, a previsão é de que o inventário seja aprovado. “O registro destas línguas é a única ferramenta que dispomos para salvaguardar tal patrimônio, de teor imaterial”, disse a superintendente. A Organização das Nações Unidas decretou 2008 o Ano Internacional dos Idiomas.

Fonte: Carolina Mello / O Imparcial On Line
http://oimparcial.site.br.com

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