Abril Indígena 2008: Considerações / Temática Indígena – Uma questão nacional.

Temática Indígena: Uma questão nacional.

São 21:00h do dia 17 de abril de 2008. Depois de assistir aos principais jornais televisivos (Band, Record, SBT, Globo), percebo que os acontecimentos registrados no Abril Indígena 2008, resultado de mais um Acampamento Terra Livre, de fato incomodaram e muito certos setores da sociedade.
Nem uma emissora mostrou as seguintes imagens (que todas possuiam pois estavam lá presentes):
Os índígenas do movimento não fizeram somente um, mas 3 atos num mesmo só:
a) ao final da tarde de hoje, por volta das 17:00h, atravessaram o Eixo Monumental e em frente ao Ministério da Defesa fizeram o primeiro ato. Do carro de som bradavam duras críticas ao Ministério e ao Coronel Heleno, inimigo público dos povos indígenas, por suas recentes declarações. O coronel Heleno entretanto não ouviu os insultos. Ele estava neste momento em algum lugar, numa solenidade em homenagem ao Dia do Exército, onde, para variar, estava falando asneiras sobre demarcação de terras indígenas ou de como os indígenas ameaçam a seguranaça nacional.
b) Do Ministério da Defesa, a passeata Indígena cruza mais uma vez o Eixo Monumental ( em hora de absoluto pico do trânsito) em direção ao Ministério da Saúde, para protestar contra a falência total e irrrestrita do modelo de saúde indígena implementado pela FUNASA e por conta da morte de centenas de crianças indígenas motivado pelo seu não atendimento. Alguns guerreiros com arcos e flechas cuidavam de segurar o trânsito infernal que se formou. No Ministério da Saúde, seguido dos discursos das lideranças, foi queimado um boneco que representava o Ministro Temporão e em vez de entregarem uma carta de protesto como de praxe, entregaram um caixão de verdade, com uma única denúncia que cobria o caixão: FUNASA MATA OS POVOS INDÍGENAS. O caixão foi deixado em cima da laje da porta principal do ministério.
c) De lá a passeata seguiu para o STF, onde mesmo sem o carro de som, impedido pelas dezenas de policiais que a esta altura já faziam o cerco, o protesto tríplice teve seu desfecho. Ao chegar diante da estátua que simboliza a justiça e que é cercada por grades, um jovem guerrreiro subiu rapidamente e colocou um cocar na estátua. Uma boa porção de segunças engravatados ameaçou pegá-lo. Ele rapidamante pulou de volta. Os índios comemoraram. Um dos seguranças sobe e tira o cocar. Os índios protestam. Neste momento, Jecinaldo Saterê- Mawé pula para dentro das grades, sobe na estátua da justiça e comanda de lá uma série de palavras de ordem que os índios repetem: “Raposa Serra do Sol: desintrusão já”; “Fora os arrozeiros”; Terrorismo nunca mais” e outras tantas. Ele deposita uma cópia da Constituição Federal no colo da justiça. Os índios entoam um canto-guerreiro que já se transformou em símbolo do movimento: “Pisa ligeiro, pisa ligeiro, quem não pode com a formiga não assanha o formigueiro”. O protesto tem seu encerramento.
A população brasileira mais uma vez ficou sem o direito de ver pela mídia, esta beleza de protesto tríplice. O Jornal Nacional noticiou apenas a fala equivocada do Coronel Heleno na solenidade do dia do Exército, com trechos da mesma se referindo diretamente aos povos indígenas. Depois entrou ao vivo de Brasíla um repórter dizendo que “os índios que estavam fazendo protesto em Brasília estavam reunidos com o Ministro do Supremo Gilmar Mendes para cobrar solução imediata na questão da demarcação de Terras Indígenas” e também que “o presidente Lula não gostou das declarações do Coronel Heleno e tinha convocado uma reunião de emergência no Palácio do Planalto”.
Isso me traz um leve odor de pauta trancada “a pedido”. A imprensa jamais poderia mostrar as denúncias feitas por um bando de índios contra o Coronel Heleno, diante do Ministério no Dia dio Exército. E nem o rebate feito pelo movimento de cada uma das violências que o Estado Brasileiro e os empresários do grande capital tem feito contra os índios do Brasil, representados que foram por um ministro trasnformado em judas e uma estátua com cocar que tem estado cega para os direitos indígenas.
É apenas uma questão de tempo para estourar no país a mais grave crise nacional: vai ser preciso um novo genocídio para fazer calar a voz dos 230 povos que não aceitam as obras do PAC em suas terras, que exigem que as desintrusões de terra aconteçam pois estão na lei, que não estão dispostas a se curvar diante da violenta força do capital. Como eu dizia há 8 anos atrás: a questão indígena é uma questão nacional. Aliás, sempre foi historicamente uma questão de estado.
Eu só sei de uma coisa: os povos indígenas vão continuar lutando. E com uma força e beleza que dá gosto de ver.

Cris Tapuia, militante, professora e mãe.
Brasília, 17 de abril de 2008 – 22:00h

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Um Comentário

  1. Roseane

    Amigo a mídia não gosta desse tema, infelizmente. Com certeza muitas coisas poderiam ser mostrada de norte a sul do país… Hoje é de celebração, mas também de luta pela reparação das violações que os povos indígenas vem sofrendo.

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