Nossos índios não tenham o mesmo fim dos cavalos selvagens de Roraima

“Por favor, peço a todos que se mantenham vigilantes quanto às conseqüências dessa nova campanha contra os povos indígenas brasileiros, para que nossos índios não tenham o mesmo fim dos cavalos selvagens de Roraima”. Antônio Carlos Fon.
Trechos da carta do jornalista Antônio Carlos Fon para Luiz Nassif.

“Ricardo Boechat anunciou hoje pela manhã que o repórter Fábio Pannunzio está de volta a Roraima para cobrir o “conflito” entre índios e “arrozeiros”. Coitados dos índios. Fábio é um bom repórter, eu o conheci em 1993, quando da greve da TV Jovem Pan, onde ele trabalhava. Eu era, na época, presidente do Sindicato dos Jornalistas de São Paulo e ele repórter da TV Jovem Pan, fazendo parte do grupo ligado ao João Carlos Di Gênio. (…).

No jornal da Rádio Bandeirante apresentado hoje pela manhã por Ricardo Boechat, comentando o incidente em que dez índios foram feridos a bala pelos seguranças – ou “jagunços”, dependendo da posição de cada um – do prefeito Paulo César Quartieiro, Fábio Pannunzio fez uma defesa aberta e descarada dos “arrozeiros”.

A primeira cobertura de Fábio Pannunzio do tema da reserva indígena foi um escândalo. Ele ouviu o governador tucano de Roraima e as lideranças dos “arrozeiros”, todos contrários à demarcação das terras indígenas, sem abrir espaço para a defesa da reserva. Entre outros absurdos, Fábio tentou apresentar a sociedade roraimense como reféns dos índios waimiris-atroaris, que fecham a passagem pela BR 174 à noite, para proteger suas áreas de caça. Fábio, como afirmei lá em cima, é um bom repórter e, assim, é incompreensível que não tenha feito nenhuma menção à construção da BR 174.

A abertura dessa estrada é um dos episódios mais abafados, infames e sinistros da história das Forças Armadas brasileiras no período do regime militar. Encobertos pelo AI-5, os militares brasileiros cometeram um dos maiores genocídios da história mundial, muito pior que o dos armênios pelos turcos ou dos judeus pelos nazistas. Em 1968, quando começou a revolta dos waimiris-atroaris contra a abertura da BR-174, sua população era estimada em mais de 6.000 pessoas; em 1974, quando as forças armadas terminaram sua campanha de extermínio, eles eram menos de 500. Dessa guerra restaram, pelo lado dos waimiris-atroaris as lendas dos grandes chefes guerreiros Maiká, Maroaga e Comprido (nomes dados pelos brancos, na verdade seus nomes seriam, muito provavelmente, Sapata e Depini) todos mortos pelo exército.

O episódio mais infame dessa guerra, documentada por entrevistas gravadas pelo padre Silvano Sabatini com índios wai-wai, waimiris-atroaris e sertanistas e relatadas no livro “Massacre” (Edições Loyola, 1998) foi o bombardeio pela Força Aérea Brasileira de uma maloca em que os waimiris-atroaris realizavam uma festa ritual. Nas lembranças na história dos waimiris-atroaris o crime é definido como “maxki” (feitiço). O feitiço que caiu do céu era, na verdade, bombas químicas despejadas pela FAB sobre um povo indefeso.

As terras dos waimiris-atroaris abrigam entre outras riquezas a província mineral de Pitinga, uma das mais ricas do mundo e a maior jazida de cassiterita do planeta.

As matérias de Fábio Pannunzio trazem o risco de um novo genocídio contra as populações indígenas de Roraima. Por favor, peço a todos que se mantenham vigilantes quanto às conseqüências dessa nova campanha contra os povos indígenas brasileiras, para que nossos índios não tenham o mesmo fim dos cavalos selvagens de Roraima.

Em 1981, estive em Roraima fazendo uma edição especial sobre as novas fronteiras agrícolas para a IstoÉ. Os principais inimigos dos “arrozeiros”, na época chamados simplesmente de “gaúchos”, e que estavam chegando a Roraima levados pelo governador Ottomar de Souza Pinto, naquele tempo não eram os índios, mas as manadas de cavalos selvagens que invadiam as plantações de arroz para pastar. O Hélio Campos Mello, com quem dividi a matéria, fotografou os únicos exemplares de cavalos selvagens do Brasil, mas eles não existem mais. Foram dizimados a tiro ou veneno pelos “gaúchos”.

Os “gaúchos” não eram chamados de “arrozeiros” porque plantavam, na verdade, brachiaria. Como o Banco do Brasil não financiava pastagens, a brachiaria era plantada consorciada com arroz. No primeiro ano, a produção de arroz explodia, enquanto a brachiaria começava a deitar raízes. No segundo, a produção se reduzia à metade ou menos, para praticamente desaparecer no terceiro, quando a pastagem tomava conta das terras. Aí os “gaúchos” reportavam a quebra da safra para negociar as dívidas com o Banco do Brasil. Quem quiser confirmar essa história, basta consultar os arquivos dos financiamentos do Banco do Brasil em Roraima na época.

Mais de 25 anos depois, parece que as coisas não mudaram muito por lá”.

Antonio Carlos Fon.

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