FSM quer diálogo entre povos da Amazônia e o resto do mundo

FSM quer diálogo entre povos da Amazônia e o resto do mundo

Por Brunna Rosa

Foto: Marcelo Lelis/Pará

O Fórum Social Mundial em Belém (PA) é uma oportunidade para os povos da Amazônia dialogarem com o mundo. A opinião é de Aldalice Moura da Cruz Otterloo, interante da Coordenação do Grupo de Facilitação do FSM Amazônico. O evento acontece de 27 de janeiro a 1º de fevereiro de 2009 e deve contar com a presença de mil indígenas cujo deslocamento será priorizado pela organização do evento.

A diretora-executiva da Associação Brasileira de Organizações Não Governamentais (Abong) acredita que o encontro vai demandar que movimentos e organizações de outras parte do planeta entendam o ponto e vista de quem vive na região Amazônica sem tentar “ditar regras de fora para dentro”.

Em entrevista à Fórum, Aldalice Otterloo fala ainda sobre os preparativos para transformar a capital de Belém no território do FSM e das dificuldades no relacionamento com poder público, especialmente a prefeitura. Nesse aspecto, ela não descarta o fato de 2008 ser um ano eleitoral como um dos fatores para as incertezas.

Desde que foi criado, em 2001, na cidade de Porto Alegre, o evento se configurou como processo mundial e permanente de busca de alternativas às políticas neoliberais, por meio do debate democrático de idéias, da troca de experiências e da articulação de movimentos sociais e ONGs em redes.

Confira a entrevista.

Fórum – Qual a importância para a Amazônia em sediar uma mobilização do tamanho do Fórum Social Mundial?
Aldalice Otterloo – Demonstrar os impactos perversos que esse modelo de desenvolvimento, fundamentado no neoliberalismo, vem causando à região tanto em relação à exploração irracional dos recursos naturais quanto na violação dos direitos dos povos que aqui vivem. É também uma oportunidade de dar visibilidade a lutas de 500 anos de resistência, a processos de enfrentamento e a alternativas criadas pelos movimentos sociais, ONGs, redes e fóruns da sociedade civil amazônica. Com tudo isto também uma oportunidade inédita para o mundo dialogar a partir das vozes da Amazônia em vez de discutir a partir de si sobre a Amazônia e ditar as regras de fora para dentro.

Fórum – Quais serão as principais discussões do FSM Amazônico?
Otterloo – Sem dúvida uma das questões se relaciona às mudanças climáticas. Há o necessário debate sobre a biodiversidade e o avanço do monocultivo, agora sob a exigência dos agrocombustíveis, o aumento do desmatamento, a ameaça à segurança alimentar com a redução na produção de alimentos e a insustentabilidade das cidades da Amazônia, provocadas pela injustiça ambiental no campo. Porém o Conselho Internacional abriu a consulta pública sobre o Fórum 2009 e que ajudará na construção desta edição.

Fórum – Quem pode responder a consulta pública?
Otterloo -Todas as pessoas, organizações, redes e movimentos participantes do Fórum. No site do FSM 2009 estão os objetivos adotados para a organização do FSM em Nairóbi (2007) e campos [de formuláro on line] para sugestões.

Fórum – Quais são os principais desafios para a organização do Fórum?
Otterloo – O primeiro grande desafio é convencer os governos municipal, estadual e federal de que o FSM é uma articulação da sociedade civil e que o governo é apoio e, portanto, o protagonismo tem de ser da sociedade civil. Isso deve ser respeitado ainda que sem o apoio governamental um evento deste porte torna-se irrealizável. É preciso criar estratégias para que esse protagonismo seja hegemonizado pelos movimentos sociais e povos excluídos da Amazônia, da Pan Amazônia, da América Latina e de outras regiões do planeta.
Outro desafio é construir alternativas de sustentabilidade dos processos e articulações construídas [no FSM], fundamentadas na solidariedade, na ética e no respeito à dignidade humana, por meio de relações mais horizontalizadas na captação dos recursos e no aprofundamento dos debates. Precisaos de mais visibilidade às lutas produzidas pelos movimentos contra o modelo predador e desumano que violenta não só direitos dos povos, mas desnacionaliza países, controlando o que temos que produzir e comer, destruindo as culturas que enriquecem a diversidade.

Fórum – Qual é o envolvimento dos governos e da sociedade civil nessa preparação?
Otterloo – Bem, aqui depois de alguns tensionamentos, estamos construindo relações mais solidárias e respeitosas com o governo do estado do Pará e a sociedade civil, na medida em que, no processo, foi se clareando o papel e as responsabilidades de cada um dos atores.
Por parte da sociedade civil, desde outubro de 2007 funcionam sete grupos de trabalhos – mobilização, comunicação e memória, economia solidária, recursos e logística, cultura, juventude e metodologia. Este conjunto demonstra um dinamismo surpreendente, evidenciado na semana de Mobilização e Ação Global, em janeiro de 2008, quando promovemos uma demonstração pública de mais de sete mil pessoas.
O governo do estado do Pará estruturou uma equipe de apoio composta por profissionais liberados em tempo integral, com infra-estrutura própria, a fim de facilitar a articulação com o governo federal.
Os problemas estão na participação da prefeitura de Belém, que não tem correspondido a nossas demandas e nem naquilo que lhe compete, como melhoria da infra-estrutura da cidade. É um ano complicado por causa das eleições municipais e isso pode ser um dos fatores para esse posicionamento.

Fórum – Qual será a influência da Amazônia na definição dos tems do Fórum?
Otterloo – Nas discussões sobre o conteúdo a ser desenvolvido durante o FSM, chegamos à conclusão de que o evento deve possibilitar que os povos da Amazônia dialoguem com o mundo e que isto deveria ser o tom, o contexto do evento. Esta opção foi de tal modo acentuada junto ao Conselho Internacional do FSM que o segundo dia será integralmente dedicado às questões Pan Amazônicas a partir das manifestações dos seus povos originais e de longa tradição ou seja indígenas, extrativistas e afrodescendentes, chamando o mundo à responsabilidade de dar uma resposta positiva aos 500 anos de resistência afro-indígena e popular. Portanto, as temáticas relacionadas aos povos indígenas como garantia de terra e território, incentivo à produção, preservação de sua cultura e a da floresta serão debatidas pelos próprios povos indígenas para construir sua plataforma para trazer ao Fórum.

Fórum – Como assegurar a participação dessas populações?
Otterloo – Para fortalecer esse processo e dar visibilidade às suas lutas e alternativas no decorrer do FSM, esse será um segmento prioritário para receber apoio do Fundo de Solidariedade para deslocamento. Existe a previsão de mil índios de diferentes etnias e culturas não só da Amazônia brasileira, mas da Pan Amazônia no evento. Haverá também espaço para hospedagem e alimentação e, no território do FSM, haverá a Casa dos Povos Indígenas e Quilombolas para exposição de seus produtos, lutas e articulações com outros povos indígenas do mundo, assim como com outros segmentos, mas a partir de uma iniciativa deles.

Brunna Rosa

Fonte:http://www.revistaforum.com.br/sitefinal/NoticiasIntegra.asp?id_artigo=2949

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